A China quer que sua moeda tenha hegemonia mundial?

Em um texto recente, o Boletim abordou as dificuldades que a moeda chinesa possui para ultrapassar o dólar no Sistema Monetário Internacional.

Dessa forma, para uma melhor compreensão do que será apresentado no texto presente, caso não tenha lido o anterior:

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Sendo assim (visto que o leitor já se atualizou) o objetivo desta análise é apresentar as razões pelas quais a China pode não desejar que sua moeda tenha relevância mundial – como o dólar. Nesse sentido, o texto irá trabalhar com um motivo potencial e dois extras. São eles:

  1. Reservas em dólar;
  2. Papel da hegemonia;
  3. Etnias e conflitos.

E aí, você tem interesse nesse assunto? Sim? Então vem comigo!

RESERVAS EM DÓLAR EM CONTRASTE À MOEDA CHINESA

Em primeiro lugar, reservas internacionais – ou cambiais – são ativos (créditos) que os países possuem em moeda estrangeira. Desse modo, são úteis ao:

  • Proteger as moedas nacionais de choques externos, como crises cambiais;
  • Garantir o cumprimento de obrigações do país no exterior e;
  • Sustentar o valor da moeda local.

Além disso, as reservas podem ser em:

  • Títulos;
  • Depósitos em moeda;
  • Direitos especiais de saque junto ao Fundo Monetário Internacional;
  • Depósitos no Banco de Compensações Internacionais e;
  • Ouro;

Em segundo lugar, as reservas chinesas são as maiores do mundo. Dessa maneira, em 2020 a China ultrapassou sua máxima – abril de 2016 – e novamente em 2021.

  • 12/2020: US $3,217 trilhões, com aumento de US $38,03 bilhões. Resultante da recuperação econômica do país em meio à pandemia. Ou seja, o yuan mais forte em relação ao dólar enfraquecido.
  • 03/2021: US $3,17 trilhões, queda de US $34,96 bilhões em relação a fevereiro. Neste caso, o recuo se deu por conta da valorização do dólar, ao longo de março, e das variações nos preços dos ativos.
  • 05/2021: US $3,222 trilhões, alta de US $23,6 em relação à abril. De acordo com dados do Banco Central Chinês (PBoC) por conta de uma alta nos preços dos ativos globais e da entrada de capitais pelos mercados de ações e renda fixa do país.
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Em terceiro lugar, a maior parte das reservas da China são em dólares. Porém – usando como exemplo as reservas de títulos de dívidas, no caso, os dos EUA – por terem baixas taxas de juros, o retorno não é tão grande.

Assim, a China utiliza essas reservas como meio de financiar seus investimentos no exterior, o que rende mais para o país.

Em outras palavras, a China é um país que cada vez mais investe em continentes como África, América Latina e a própria Ásia, e em qual moeda?.. Isso mesmo, em dólar!

Ou seja, considerando que o dólar possui um maior valor de compra se comparado ao yuan, a China é capaz de investir em ativos reais, como recursos naturais, tecnologias, companhias financeiras e portos.

Portanto, você já deve suspeitar que, com seu alto valor de reserva internacional, e com a maioria desta em dólar, o país não possui interesse em ter sua moeda chinesa como hegemônica. E você, leitor, está certo!

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EXTRA: PAPEL DA HEGEMONIA

O país que exerce hegemonia em um cenário mundial deve ser capaz de fornecer bens públicos para os demais. São eles:

  1. Desenvolvimento;
  2. Estabilidade econômica;
  3. Assistência humanitária;
  4. Criação e manutenção de regimes internacionais;
  5. Mediação de conflitos;
  6. Segurança internacional;
  7. Liderança em relação às questões climáticas;
  8. Pesquisa básica e descobertas científicas;
  9. Controle de armas nucleares;
  10. Controle de doenças, entre outros.

Desse modo, para tornar-se um hegêmona, o Estado deve ser grande o suficiente para ter condições ($$$) de arcar com os custos de tais financiamentos. Além disso, a moeda do país em questão deve ser a mais forte do sistema.

Apesar de o ator dominante se beneficiar dessa situação – lucra e expande seu poder e capacidade de agência sobre os outros países – são os Estados menores que mais se beneficiam. Isso porque não arcam com os custos de prover o bem e, mesmo assim, têm acesso a eles.

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Ademais, é por isso que a deterioração dos bens públicos pode derivar de um declínio do poder hegemônico, pois este os forneciam à comunidade internacional.

Nesse contexto, a China não possui interesse em assumir tal liderança mundial. Assim como não possui intenções de fortalecer sua moeda a este ponto.

Ao invés disso, planeja projetar-se cada vez mais através de planos como a Nova Rota da Seda, por exemplo. Então, mais uma vez, para a realização dos planos de investimentos da China – em grande parte de infraestrutura – a hegemonia da moeda chinesa não é necessária.

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EXTRA: ETNIAS E CONFLITOS

O imenso território chinês possui uma população altamente diversa. Por conseguinte, visto o grande número de etnias presentes no país, pode-se afirmar que a China possui conflitos internos, de cunho político, delicados.

Desse modo, o Estado, ao possuir uma forte atuação dentro de seu território, escapa do exercício pleno dos deveres de uma hegemonia – listados no tópico acima, por exemplo. O que, em outras palavras, pode configurar-se em um problema para a atuação da China, de maneira soberana, em assuntos internacionais.

Nesse contexto, ao todo, são 56 etnias reconhecidas pelo governo. Algumas delas são:

  • Han: derivada da dinastia Han, uma das mais poderosas e famosas do país. Nesse sentido, corresponde a 92% da população, formando um grupo de mais de 1 bilhão de pessoas. Portanto, são a maioria em quase todas as províncias, com exceção de Xinjiang e o Tibete.
  • Zhuang: segunda maior etnia – cerca de 1,3% dos habitantes do país, ou 18 milhões.
  • Hui: terceira maior etnia, compõe algo em torno de 11 milhões da população. Apesar de serem, na prática, muito parecidos com os Han, a principal diferença é que são um povo mulçumano.
  • Manchus: famosos pois a última dinastia chinesa, Qing, era manchu. Além disso, correspondem a cerca de 10 milhões de pessoas.
  • Mongóis: populares devido a Genghis Khan, líder do maior império terrestre já existente, o Império Mongol. Habitam a região autônoma da Mongólia Interior.
  • Tibetanos: conhecidos pelo líder espiritual budista, Dalai-Lama. Ademais, os Tibetanos lutam pela independência da região em que vivem, o Tibete.
  • Uigures: esta etnia – que representa cerca de 10 milhões da população – passa por conflitos com o governo chinês. Nesse contexto, apesar de Xinjiang, região na qual vivem, ser considerada autônoma, o governo ainda possui forte controle.
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Além disso, a crise dos Uigures ultrapassou a fronteira de conflito doméstico e agrava tensões internacionais da China, sobretudo pelas acusações de violação aos direitos humanos. Para saber mais sobre este conflito:

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E então, qual a sua visão sobre a hegemonia da moeda chinesa e os fatores por ela desencadeados?

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Obrigada e até a próxima!

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