O que é o “Green New Deal”?

É possível conciliar desenvolvimento e sustentabilidade?

Essa é uma pergunta central que norteia diversos debate sobre desenvolvimento sustentável desde a década de 1990. E para muitos especialistas a resposta é que sim, isso é possível.

Por isso, na matéria de hoje do Boletim vamos te explicar um pouco mais sobre o “Green New Deal” e qual a sua importância para o futuro da humanidade.

ORIGEM DO TERMO

Antes de mais nada, o termo “Green New Deal” tem sua origem no New Deal, plano de recuperação econômica do governo de Franklin Delano Roosevelt. Baseado nos princípios escritos por John Maynard Keynes, a princípio previa maior participação estatal na economia. Desse modo, principal objetivo era a recuperação econômica após a crise de 1929.

Franklin Delano Roosevelt, 32° presidente dos EUA responsável pelo New Deal.

Caso queira saber mais sobre o assunto, visite nossa matéria sobre aqui.

Diante disso, o Green New Deal é um conjunto de medidas que visa conter os efeitos de uma nova crise, a crise climática. Principalmente, através de medidas sustentáveis, que não comprometam o bem-estar social da população, nem o meio-ambiente, buscando conciliar ambos.

MUDANÇAS CLIMÁTICAS?

Primeiramente, as primeiras evidências científicas sobre a influência da ação humana nas mudanças climáticas surgiram ainda no século XIX, ainda que objeto de contestação por alguns grupos, hoje é algo consolidado.

Consequentemente teve papel central na criação de um regime de mudanças climáticas, ou seja, reconhece a necessidade de uma ação conjunta para combater esse problema.

Em vista disso, desde 1989 o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) é o órgão da ONU responsável por emitir os relatórios sobre o tema.

Dessa maneira, o relatório emitido em 2018 afirma que é preciso limitar o aumento de temperatura da Terra a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais para evitar um colapso ambiental.

Afinal, para que isso aconteça a emissão de Gases Efeito Estufa (GEE) precisa cair entre 40% e 60% até 2030 e chegar a zero emissões até 2050.

Sede da OMM, onde fica o IPCC, em Genebra, na Suíça.

O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

O termo foi usado pela primeira vez na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, ou Rio-92, que aconteceu no Rio de Janeiro no ano de 1992. Como resultado, até hoje o termo é amplamente usado nas discussões sobre o tema.

A princípio, seu ponto central é o reconhecimento que os recursos naturais são finitos, por isso os tomadores de decisões devem suprir as necessidades da geração atual sem comprometer as futuras.

Para que isso ocorra eles devem usar estes recursos de maneira controlada e planejada. Contudo, controlar e planejar a extração de recursos naturais não significa que o progresso deva parar.

Este é um tema sensível aos países do Sul Global, que ao mesmo tempo que almejam se desenvolver, são os que mais correm riscos com as mudanças climáticas. Diante disso, um modelo que imita os moldes usados no Norte Global é inviável, pois foi este que nos trouxe à situação que nos encontramos. Uma situação onde o colapso climático parece estar cada vez mais próximo.

Deste modo, Green New Deal é uma tentativa de implementar esse modelo de desenvolvimento.

O GREEN NEW DEAL

O Green New Deal é uma proposta que busca conciliar as metas de redução de GEE do IPCC com o desenvolvimento sustentável, para a natureza e para a humanidade. Sem embargo, devemos ter em mente que não existe apenas um modelo de Green New Deal, mas sim diversos modelos diferentes com bases diferentes.

Porém levar em conta que para que funcione, o Green New Deal precisa ser aplicado em escala global. E de antemão, para que funcione, é necessário considerar as particularidades locais. As políticas aplicadas à Europa não serão as mesmas que aplicadas à América Latina, por exemplo.

Sobretudo, Noam Chomsky e Robert Pollin em seu livro “Crise Climática e o Green New Deal Global: a Economia Política Para Salvar o Planeta” apresentam algumas tendências globais para lidar com o problema.

green New Deal
Noam Chomsky e Robert Pollin, autores do livro “Crise Climática e o Green New Deal Global: a Economia Política Para Salvar o Planeta”

1) FINANCIAMENTO

Antes de mais nada os autores apontam que para atingirmos a meta deixarmos de emitir GEE até 2050 devemos usar entre 2,5% e 3% do PIB global por ano.

Dessa maneira, esse dinheiro seria destinado à transição energética, investimentos em energia renováveis, eficiência energética e reflorestação.

Para isso, investimentos tanto do setor público quanto privado devem ser feitos. Sendo que parte destes investimentos seriam deslocados do setor militar.

De antemão, o financiamento total deste projeto até 2050 teria um custo total de US$ 120 trilhões, que inicialmente custaria US$ 2,6 trilhões por ano até 2024, quando subiria para US$4,5 trilhões.

Assim como Pollin também defende impostos sobre a emissão de carbono, contudo o autor sugere um sistema de “rebate” sobre essa taxa. 75% do valor desse “rebate” vai para redistribuição de renda para as classes mais baixas. O restante, 25% iria para investimentos em energia limpa.

Por conseguinte, o Banco Central Europeu e a Reserva Federal dos EUA criariam “Programa de Empréstimo de Títulos Verdes”, financiado tanto com os cortes do setor militar quando com o valor do “rebate”. Seu objetivo seria criar uma maneira de bancar essa transição.

2) JUSTIÇA SOCIAL

Acima de tudo, a justiça social não pode ser colocada de lado, por isso esse processo deve garantir a criação de novos empregos “verdes”, que ajude a melhorar a qualidade de vida da população. Assim como garantir que os trabalhadores dos setores relacionados a combustíveis fósseis não fiquem desamparados.

Por fim, a transição para esse novo modelo daria oportunidade para pequenas empresas crescerem durante o processo de transição para uma “nova economia”.

Além disso, Chomsky e Pollin defendem que países desenvolvidos devem auxiliar com transferência de recursos o Sul Global neste processo. Isso por conta das desigualdades entre as duas partes, já citadas neste texto.

Em analogia a esse ponto, Robert Pollin comenta sobre a ideia do decrescimento econômico como estratégia de conter as mudanças climáticas.

O economista defende que apesar de poder ser viável a países desenvolvidos, desconsidera as diferenças entre o padrão de vida e padrões de consumo entre Norte e Sul Global.

Ademais, a diminuição de 10% do crescimento do PIB global significaria a maior recessão desde a década de 1930, porém a emissão de CO2 diminuiria apenas em 10%. Indo de 33 bilhões de toneladas para 30 bilhões de toneladas anuais.

3) ENERGIAS RENOVÁVEIS

Esse é definitivamente o ponto central de toda a questão, porém seus custos ainda são pouco difusos e ainda é comum acreditarem que é algo muito caro. Visto isso, a tabela a seguir mostra as estatísticas do Departamento de Energia dos EUA dos custos a geração de 1 kW de alguns tipos de energia mais comuns:

Tipo de EnergiaValor em US$Valor em R$
Eólica0,060,33
Solar0,060,33
Geotérmica0,050,27
Nuclear0,090,49
Carvão c/ captação de carbono0,130,71
Valor para a geração de 1kW de energia.

Conforme os dados apresentados, podemos ver que energias renováveis já possuem um valor competitivo em relação às demais, além disso, a tendência atual é que os preços da geração renováveis continuem em queda, em especial, das energias eólica e solar.

Segundo a Agência Internacional para as Energias Renováveis (IRENA), a instalação de plantas para geração de energia renovável pode ser um grande aliado da recuperação econômica pós-pandemia.

Porque é difícil implementar?

Em conclusão, podemos dizer que o Green New Deal é uma alternativa viável para “salvar” o futuro da humanidade e do planeta.

Desde que todos atores se comprometam em mesmo grau a implementarem essas medidas, visto que é um problema que ultrapassa as fronteiras estatais. Desta maneira, mostrando a necessidade de cooperação internacional.

Sobretudo, sabemos que nem sempre é essa a realidade visto que diferentes Estados possuem interesses divergentes, o que por conseguinte dificulta a implementação de um Green New Deal global. Apesar de esforços individuais serem importantes, não são o suficiente.

Em vista disso, o que pode ser feito no momento é pressionar grupos de tomadores de decisão a implementarem medidas mais sérias sobre o problema.

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