Qual foi o impacto político do movimento punk?

Arte, cultura e política sempre andaram juntos em nossa sociedade, isso pois expressões artísticas são um reflexo do contexto vivido. Afinal, a arte surgiu como uma maneira de registrar a vida diária, hábitos e costumes.

Por isso, não seria diferente com o Movimento Punk, que surgiu no Reino Unido na década de 1970 e teve grande papel ao questionar e provocar a sociedade da época.

No artigo de hoje do BE, falaremos sobre como o movimento surgiu e como se desenrolou ao decorrer dos anos, além de sua importância política e cultural.

Vamos lá?

Movimento Punk
Um grupo de punks em Londres, 1977.

Os anos 1970

Os anos 1970 no Reino Unido foi um período de crise econômica e social. Os choques do petróleo que ocorreram nesta década tiveram grandes impactos nos países capitalistas Ocidentais, tanto na Europa quanto na América.

Então, vendo o país quase quebrar, Londres recorre ao FMI para pedir um empréstimo em 1976. Contudo, as políticas de austeridade causadas pelas condições impostas pela instituição provocam a maior crise social no país desde os anos 1930.

Como resultado, a classe trabalhadora é a mais afetada, em especial os jovens. Em 1977, o país alcança a maior taxa de desemprego da década, em 5,6% da população.

Taxa de Desemprego (16 anos ou mais). Fonte: Office for National Statistics.

Era a primeira geração que teria o padrão de vida menor que o dos pais.

O sistema político britânico

Antes de mais nada, um ponto central para a base política do Movimento Punk é o sentimento de insatisfação com a política tradicional. Mas primeiro precisamos entender brevemente como funciona o sistema político britânico.

O Reino Unido é uma monarquia parlamentarista. Na prática, isso significa que há uma divisão no poder executivo entre o Chefe de Estado, o monarca, que desde 1952 é a Rainha Elizabeth II, e o Chefe de Governo, o Primeiro Ministro, cargo ocupado pelo conservador Boris Johnson, desde 2019.

O Chefe de Estado é apenas um cargo cerimonial, sem grande carga política. Ou seja, quem detém o poder mesmo é o Chefe de Governo, eleito a partir do partido que obtém maioria no Parlamento. Saiba mais como ocorre esse processo:

Como podemos observar no vídeo, apesar da existência de outros partidos políticos, há uma grande alternância entre os dois maiores: Partido Conservador (Conservative, ou Tories), partido de centro-direita, e o Partido Trabalhista (Labour), partido de centro-esquerda. Enquanto os demais apenas formam coalisões a favor ou contra o governo.

Alienação

O sentimento de falta de representação política nos dois grandes partidos que ocupam a maioria do Parlamento gerou uma alienação da classe trabalhadora em relação à classe dominante. Essa sensação de alienação entre os jovens da classe operária foi responsável por impulsionar a criação do punk.

Contudo, a eleição do Primeiro Ministro trabalhista, Harold Wilson em 1974 foi um grande catalisador desse sentimento. Sobretudo pois em primeiro instante sua eleição foi vista como uma vitória para as classes mais baixas, já que tirou o Partido Conservador do poder.

Ex-Primeiro Ministro, Harold Wilson, em novembro de 1966.

Porém, na prática, o inverso aconteceu. Um exemplo disso é a taxa de desemprego, que dobrou entre 1975 e 1977, indo de 700.000 desempregados para 1.4 milhão, atingindo os jovens principalmente.

Segundo Johnny Rotten (ou John Lydon, como é chamado hoje em dia), ex-vocalista do Sex Pistols para o documentário da banda “The Filth and the Fury” (2000): “O Partido Trabalhista prometeu tanto, mas fez tão pouco para a classe trabalhadora”, expressando o sentimento de frustração com o partido de centro-esquerda.

Como resultado, a falta de perspectiva de futuro era um elemento muito presente no imaginário dessa geração, e fez parte dos elementos que fundaram punk.

“God Save The Queen”, “London Calling” e mais

Esses grupos que se sentiam alienados e não representados pela classe dominante que são responsável por criar o Movimento Punk. Essa subcultura surgiu como uma maneira de expressarem sua insatisfação não apenas com o governo, mas também com o sistema capitalista e as relações sociais existentes dentro desse sistema.

Por isso, frequentemente os punks se identificavam com teorias revolucionárias, como o Anarquismo e o Comunismo.

Joe Strummer, vocalista do The Clash pontuou:

“A sociedade industrial nos ofereceu nada, e a passo que nos movemos para essa sociedade mais fragmentada com maior ênfase na tecnologia, o Estado queria que trabalhássemos de acordo com nossa classe…Tudo isso se parece controle de classe, particularmente das classes mais baixas”.

Esse trecho foi tirado do livro “Let The Fury Have the Hour: Joe Strummer, Punk, and the Movement That Shock” (2004) de Antonino D’Ambrosio.

Eventualmente seus questionamentos e críticas sistêmicas também eram expressas nas suas letras, que buscavam se comunicar com os demais membros da classe trabalhadora que se identificavam com o que ouviam.

“London Calling”, do The Clash.

O álbum “London Calling” (1979) do The Clash é um grande exemplo deste aspecto do punk. O jornalista Giuliano Santoro fez uma ótima análise sobre esse álbum para a Jacobin Itália. Caso quiser ler o artigo traduzido na Jacobin Brasil, clique aqui.

Por fim, alguns outros exemplos de músicas com alto teor político que podemos citar também são:

O Punk e as minorias

Ao mesmo tempo em que discutimos os problemas de classe que envolvem o punk, não podemos deixar de lado questões como racismo e machismo dentro do movimento, que possuía uma grande parcela de homens brancos.

Não era raro haverem letras com teor discriminatório, porém não pode-se resumir a isso. Por isso, falaremos da representação dessas minorias dentro dos Punk.

Por mais que não fossem maioria, bandas com integrantes femininas ou totalmente formadas por mulheres existiam dentro do movimento.

E além de falarem sobre os temas comuns que possuem com os homens, também abordavam em suas músicas sobre o machismo da sociedade que viviam (e ainda vivemos). Como por exemplo, as bandas The Slits e X-Ray Spex.

Rock Against the Racism (1976-1986)

“Rock contra o Racismo” foi uma organização criada visando combater o racismo no meio musical. Assim como todo movimento, o punk não era algo uniforme, havendo aqueles grupos neonazistas e anti-imigração que se apropriavam dessa estética, como por exemplo, os skinheads.

Juntamente com a Anti-Nazi League, a RAR promoveu festivais que tinham como objetivo discutir questões raciais no meio punk, contanto com a participação de artistas renomados como The Clash e Sham 69, que tocavam com intuito de trazer maior atenção à organização.

Além disso, os festivais contavam com membros do Partido Comunista Britânico e do Partido Trabalhista em sua organização.

Movimento Punk e anti-nazismo
Protesto Anti-Nazista em Londres, 1976.

E os Estados Unidos?

Por fim, todos sabemos que o Movimento Punk chegou aos Estados Unidos, produzindo grandes nomes das música como Ramones e Dead Boys.

Porém, apesar de compartilharem com os britânicos sentimentos como alienação e falta de perspectiva de futuro, o movimento nos Estados Unidos perde grande parte sua carga política e principalmente, revolucionária.

Nos EUA, o Movimento Punk foi conduzido principalmente por jovens de Classe Média, que apesar das tensões da época, como as Crises do Petróleo e a Guerra do Vietnam, não parecem ter sofrido tanto impacto como sua contraparte britânica. Além disso, tampouco chegaram a debater temas como o machismo e o racismo.

Desta maneira, as letras se esvaziaram e se limitaram a retratar um sentimento de esvaziamento, apenas. Como por exemplo, “Ain’t Nothing To Do” do Dead Boys.

Em suma, podemos dizer que apesar das estéticas e sonoridades parecidas, o movimento punk do Reino Unido carregava consigo uma carga política (e revolucionária) muito maior que o dos Estados Unidos.

Isso por conta de qual classe social foram responsáveis por sua origem, que apesar de terem vivido numa conjuntura relativamente parecida, tiveram respostas diferentes.

E aí, gostou do texto? Deixe a sua opinião aqui embaixo, e compartilhe com seus amigos.

Total
0
Shares
Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Anterior

Entenda a nova reforma trabalhista

Próximo

Tudo sobre os Jogos Paraolímpicos de Tóquio 2021