Como o Talibã assumiu controle do Afeganistão?

O Talibã voltou a ser foco em todo o mundo nos últimos dias. Enquanto os EUA se retiravam do Afeganistão, o grupo terrorista voltava a controlar todo o território afegão depois de 20 anos.

Uma breve história

Como todos os conflitos no Oriente Médio, a existência do Talibã e da sua disputa pelo controle do território afegão é complexa.

Temos que ter cuidado para não generalizar e simplificar demais. Por isso, deixo a chance de explicar melhor as origens do grupo para outro dia.

Contudo, é importante demonstrar a força da célula terrorista.

O Talibã surgiu em 1994 entre um grupo de apenas 50 estudantes e de um pensador islâmico. Em poucos meses, eles já eram uma força de mais de 15 mil homens, e dominavam 12 das 34 províncias afegãs.

Em 1996, o Talibã tomou o poder do Afeganistão. Mas a invasão americana em 2001 pôs um fim ao governo terrorista.

 O ressurgimento do Talibã

Nos 20 anos de ocupação americana, houve retrocessos e avanços nas negociações com o Talibã. Mas foi com Donald Trump que um acordo finalmente foi fechado.

Os EUA acordaram em retirar suas tropas a partir de maio desse ano, com uma retirada total em setembro. Já o Talibã se comprometeu em ter uma relação amistosa com o governo, respeitando a democracia e as estruturas do Afeganistão.

O atual presidente, Joe Biden, continuou o acordo feito por Trump. Mas o grupo terrorista guardou pouca ou nenhuma vontade de cumprir com a sua parte.

Assim, os soldados dos EUA começavam uma retirada apressada, para alguns analistas té acelerada demais. Mas, ao mesmo tempo, o Talibã entrava dominando os territórios rapidamente.

Mapping the advance of the Taliban in Afghanistan - BBC News

No dia 6 de agosto, as primeiras tropas saíram do país.

Já no dia 13 de agosto, o Talibã havia dominado 17 províncias do Afeganistão, e no dia 15, mais 7 capitais. Isso inclui Jalalabad, a segunda cidade mais importante do país.

Ainda no dia 15, os terroristas invadiram a capital Cabul, sem encontrar qualquer forma de resistência.

Apesar de alguns conflitos esporádicos, o Talibã tomou as províncias sem grandes batalhas. Nenhum conflito se arrastou por longos períodos de tempo.

A falta de combatividade das forças afegãs foi criticada. 20 anos de ocupação, quase 3 trilhões de dólares gastos, e ainda assim o treinamento das forças locais se provou ineficaz.

A saída dos EUA

Como dito, a saída foi apresada, talvez até demais. E isso resultou em um desastre logístico.

Centenas de veículos, armas e pelo menos um helicóptero de combate deixados para trás, para o uso do Talibã. O que há de mais avançado de equipamento militar no mundo, entregue para terroristas.

Por isso, podemos considerar o Talibã de hoje uma força muito mais bem equipada do que aquela que tomou o poder em 1996.

Uma nova Saigon?

Cabul e Saigon, respectivamente.

No início da retirada, Biden garantiu que ela não seria como Saigon. Isso foi uma alusão à retirada americana do Vietnã do Sul, em 1975. Naquela data, enquanto a capital era tomada pelos vietcongs, os EUA corriam para retirar seus nacionais do país, deixando civis e aliados para trás.

O evento é considerado um dos mais humilhantes da história da política externa dos EUA.

Mas as cenas que vimos foram próximas demais para alguns.

Embaixadas queimando todos os papéis. Ordens de destruição das bandeiras para que não sejam tomadas. E o pior de tudo para as comparações com Saigon, o uso de helicópteros na embaixada para a retirada de pessoal.

O aeroporto de Cabul

O Afeganistão tem apenas um aeroporto internacional, o de Cabul. Logo após o anúncio da chegada das forças terroristas, uma confusão começou.

Muitas pessoas tentaram pegar os últimos voos saindo do país. Aviões militares disputavam espaço com civis na única pista.

Chaos on the runway: Kabul airport mobbed as Afghans make desperate dash to  exit | The Times of Israel
Aeroporto de Cabul em 16/08

Ainda mais, o processo de emissão de vistos colapsou pelo número de pessoas, tanto pela internet quanto ao vivo.

Os EUA praticamente pararam a emissão de vistos. Apenas o embaixador inglês se comprometeu a emitir vistos. Ele chegou a fazer isso à mão, garantido a saída do país a todos que ajudaram com o ocidente durante esses 20 anos.

A Alemanha, no entanto, ainda não se pronunciou sobre como irá proceder com a emissão de vistos. Contudo, oficiais se colocaram contra a emissão de vistos para colaboradores que desejam fugir do Afeganistão por causa do Talibã.

Mas essa posição gerou uma revolta internacional. Por causa disso, a primeira ministra alemã convocou uma sessão de emergência para definir como agir.

O que esperar nos próximos dias?

É difícil dizer como serão os próximos dias no país. Por enquanto, o aeroporto ainda parece ser o último local seguro do país para ocidentais. O Talibã apenas faz guarda, sem impedir quem deseja entrar.

Contudo, parece inevitável que a situação piore quando o Talibã assumir seus postos na estrutura burocrática abandonada do país. O presidente fugiu sem sequer se posicionar antes.

Como será a vida do povo afegão após a saída completa das tropas é um mistério. Mas muitos temem que seja uma repetição da ditadura secular de 1990.

Em menos de três semanas, vimos a queda de 20 anos de tentativa de reconstrução de um país.

  • Leia mais: o BE tem uma lista de 5 filmes para entender melhor a política mundial, que você pode ler aqui.
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