Belarus suspendeu atleta das Olimpíadas por crítica política?

Essa semana, o comitê olímpico da Belarus suspendeu a velocista Krystsina Tsimanouskaya, durante a sua participação nas Olimpíadas.

Em seguida, depois de ser escoltada contra a sua vontade para o aeroporto de Tóquio, ela se recusou a embarcar de volta ao seu país.

Então, quer entender melhor o que levou a essa suspensão, e por que ela não quer voltar à Belarus? Vamos lá.

Por que ela foi suspensa?

A princípio, a atleta de Belarus ia competir nas eliminatórias femininas dos 200 metros na segunda (02/08). Mas ela teve a notícia de que não participaria da prova.

A razão para essa decisão foi uma postagem feita por ela no Instagram.

A atleta iria correr os 100 e 200 metros, mas foi escalada para o revezamento de 4×400 metros sem ser avisada. O treinador fez essa mudança porque alguns membros da equipe da Belarus não poderiam competir por não terem feito testes antidoping o suficiente.

Ela publicou: “Por que nós devemos pagar os erros de vocês? É arbitrário!”. E, em seguida, disse: “Não teria reagido de forma tão severa se antes tivessem me explicado toda a situação e perguntassem se eu poderia correr os 400 metros. Mas decidiram fazer tudo pelas minhas costas“.

Por causa disso, ela conta que o seu treinador veio informar que houve uma “ordem de cima” para tirá-la da equipe.

A razão disso, segundo o comitê da Belarus, seria “por decisão dos médicos, devido ao seu estado emocional e psicológico“. Ou seja, ela não estaria equilibrada o suficiente para competir nos Jogos.

Assim, ao invés disso, ela foi escoltada no domingo (01/08) por membros do comitê da Belarus do seu quarto até o aeroporto. Chegando lá, a atleta procurou a polícia e informou que não queria embarcar de volta ao seu país.

Então, ela passou a noite em um hotel no aeroporto de Tóquio. Depois de contato com o Comitê Olímpico Internacional (COI) e a organização das Olimpíadas, o COI confirmou que ela está em segurança.

Belarus Olympic sprinter Krystsina Tsimanouskaya used ...

Por que a atleta não quer voltar a Belarus?

Sendo assim, podemos dizer que a sua ação não teria um caráter político por si só. Mas a Belarus a interpretou dessa forma.

Sendo um governo autoritário, a Belarus deixa os seus atletas competirem nos Jogos Olímpicos para manter a sua presença internacional. Mas, ao mesmo tempo, requer que eles tenham uma postura alinhada ao governo. E não foi o que aconteceu.

Vale mencionar que quem comanda a equipe olímpica da Belarus é Viktor Lukashenko. Se esse nome soa familiar, não é coincidência. Ele é um dos filhos de Alexander Lukashenko, governante da Belarus e o ‘último ditador da Europa’.

Belarusian Olympic athlete Krystsina Tsimanouskaya poses with T-shirt with the lettering reading 'I just want to run' in Warsaw, after her arrival in Poland. Photo: AFP
Texto da camiseta lê: “eu só quero correr”

Além disso, se tratando de um regime autoritário, o governo não é nada tolerante com dissidentes. E o governo já tem um histórico de repressão contra atletas.

No ano passado, por exemplo, 800 atletas da Belarus assinaram uma carta em oposição à violência contra os manifestantes que disputavam a eleição de Lukashenko. Todos eles foram alvo de represálias pelo governo.

A jogadora de basquete Yelena Leuchanka, que já foi considerada uma das melhores do mundo, foi presa por 15 dias por ter participado dos protestos, que foram pacíficos.

Outro atleta da Belarus detido por causa disso foi Anton Saroka, jogador de futebol. Da mesma forma, ele participou desses protestos e foi preso por uma semana.

Além disso, Krystsina é uma dos mais de 2.000 atletas da Belarus que assinaram um documento pedindo por novas eleições, e a liberação de presos políticos.

Por conta de tudo isso, a atleta disse que teme pela sua vida se retornar à Belarus.

  • E a repressão política não para por aí. Você pode ler mais sobre o caso do avião desviado por Belarus esse ano para prender um jornalista clicando aqui.

E agora?

Já na segunda (02/08), a Polônia afirmou que emitiu um visto humanitário para a atleta. Também, o seu ministro das RE disse que o país irá fornecer todo o apoio que ela precisaria na Polônia.

Agora, ela já está em segurança na Polônia. Mas, depois de Belarus promover o sequestro de um avião civil para prender um jornalista considerado dissidente político, em maio desse ano, todo cuidado é pouco. Também por isso, a sua rota aérea foi escolhida de modo a evitar o espaço aéreo da Belarus.

Rota da atleta evitando a Belarus

Enfim, por causa dessa situação, o COI retirou as credenciais de dois treinadores da Belarus que teriam tentado obrigar a atleta a voltar ao país. Isso foi divulgado na última quinta (05/08). Agora, eles já perderam as credencias e deixaram a Vila Olímpica.

No Twitter, o COI disse que tomou essa medida “no interesse do bem-estar dos atletas da Belarus que ainda estão em Tóquio”.

  • Quer saber mais sobre a política na Belarus desde o fim da URSS? O BE tem um post sobre isso, que você pode ler aqui.

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