FIM DA ERA MERKEL, O QUE ESPERAR DAS ELEIÇÕES ALEMÃS? (PARTE 1)

Em setembro deste ano irão ocorrer as Eleições Gerais para o Bundestag, o Parlamento Alemão. Além de mercarem o início de uma nova coalisão no parlamento, estas eleições marcam o fim da Era Merkel.

Isso porque a atual chanceler alemã declarou que não irá concorrer nas eleições este ano.

Angela Merkel se encontra na frente da maior potência europeia desde 2005 e no artigo de hoje do BE faremos um balanço de seus 16 anos de governo. Esse artigo faz parte de uma série de duas partes sobre as eleições alemãs.

Vamos lá?

A ERA MERKEL

Merkel iniciou sua carreira política depois da reunificação alemã e nesse meio tempo ocupou diferentes cargos políticos em seu país. Ocupou dois ministérios durante o governo de Helmut Kohl (1930 – 2017), ocupou a liderança de seu partido, o CDU, e antes de ocupar a chancelaria, foi líder da oposição.

Merkel

Angela Merkel com Helmut Kohl em 2001

Contudo desde 2005 Merkel ocupa o cargo de Chanceler, após seu partido conquistar a maioria dos acentos do parlamento nas eleições gerais daquele ano. Mais a frente vamos explicar como funcionam as eleições alemãs e assim como quais são os principais partidos do país.

Considerada por muitos a líder da União Europeia, ao longo dos 16 anos como Chefe de Governo alemã, Merkel teve que conduzir o país (e o bloco) diante diferentes tipos de crises. Porém nem sempre sua resposta agradou a todos, causando discordâncias internas e dentro do bloco.

Merkel

Merkel fazendo o juramento para assumir o posto de Chanceler pela primeira vez, em 2005.

Dessa forma, agora vamos ver alguns dos principais pontos de seu governo.

1. Questão energética

Antes de mais nada, Merkel foi a grande responsável pelo início da transição energética alemã e isso se dá por dois principais fatores.

O primeiro deles é o tsunami que ocorreu no Japão em 2011 que provocou o desastre nuclear em Fukushima. Diante da tragédia que o mundo observou na ilha, Merkel decidiu ceder a pressão de setores mais progressistas e mudou sua opinião sobre o uso de energia nuclear.

Na ocasião seu governo aprovou o encerramento das atividades das 17 centrais nucleares alemãs até 2022.

Ainda assim, Merkel foi alvo de críticas de seus adversários, em especial de partidos como o SPD e o Die Grüne. Apesar de apoiarem a medida, criticaram a chanceler e seu partido por terem “demorado demais” para fazer algo sobre a questão nuclear.

Jüstin Trittin, então líder do Die Grüne declarou na época: “Vinte e cinco anos após Tchernobil, a CDU também aprendeu com Fukushima. É tarde, mas é certo”.

De acordo com o Deutsche Welle, as empresas receberam um valor de 2,4 bilhões de euro como compensação para o encerramento de suas atividades no país.

Merkel

Usina nuclear de Grafenrheinfeld, fechada em 2015.

O segundo ponto é o Energiewende, o programa de transição energética alemã que visa ampliar o uso de energias limpas, em especial, eólica e solar. Apesar do carvão ainda ser responsável por maior parte da produção de energia no país, atualmente 46% da energia produzida no país vem de fontes renováveis.

2. União homoafetiva

A aprovação do casamento homoafetivo em 30 de junho de 2017 pelo Parlamento Alemão é sem dúvidas um dos pontos mais emblemáticos dos quatro mandatos de Merkel no poder. Tal medida foi aprovada por 393 votos a favor a 226 contra e deu a casais homoafetivos os mesmos direitos que casais heterossexuais, como a adoção.

Desde 2001 casais homoafetivos tinham direito de união estável, porém foram preciso 16 anos para que conseguissem igualdade legal em relação aos casais heterossexuais. E neste meio tempo Merkel e seu partido sempre foram responsáveis por empacar esse debate dentro do parlamento.

Merkel

Casal gay comemora a decisão do parlamento em frente do Portão de Brandemburgo, em Berlim, capital alemã.

Por isso a declaração de Merkel à revista Brigitte que não impediria que a questão fosse colocada em pauta no Parlamento.

A chanceler complementou defendendo que os parlamentares votassem “de acordo com suas consciências” e não a posição do partido que pertencesse.

Contudo, ela própria foi contra a aprovação da medida pois de acordo ela “o casamento previsto na Constituição é entre homem e mulher. Mas complementou dizendo que esperava que a aprovação promovesse “não apenas o respeito entre diferentes opiniões, mas também trazer mais coesão e paz social”.

3. Crise migratória

Durante a crise migratória que assolou a Europa na segunda metade da última década, Angela Merkel preferiu dar uma resposta mais humanitária que política em si.

A frase da chanceler “wir schaffen Das” (“nós conseguiremos” em português), proferida em um discurso ainda em 2015 mostrou que tipo de posição o país tomaria.

Dessa forma a Alemanha mudou algumas de suas regras migratórias e adotou uma extensiva política de portas abertas. Como resultado, o país recebeu 36,6% do total de 1,3 milhão de refugiados de acordo com a Eurostat.

Todavia apesar do reconhecimento internacional de Merkel por seu posicionamento diante dessa crise, que lhe chegou a garantir o título de “Person of the Year” de 2015 pela Revista TIME. Isso não quer dizer que tais medidas não tenham sido alvo de críticas, em especial em seu próprio país e dentro da União Europeia.

Ursula Münch, cientista política e diretora da Akademie für Politische Bildung em Tutzing, sul da Alemanha, apontou em entrevista à BBC “Eu não entendia as rígidas políticas migratórias e para refugiados anteriores a 2015, mas também não acho que o que aconteceu foi uma boa solução.”

Merkel

Ursula Münch, da Akademie für Politische Bildung.

A cientista política defende que a maneira como Merkel conduziu a crise foi responsável pelo crescimento de movimentos extremistas xenófobos, tanto em escala nacional quanto dentro do bloco.

O partido populista, AfD, por exemplo, conseguiu 12,6% dos votos nas eleições de 2017, ocupando 94 das 706 cadeiras do parlamento. Além disso, a cientista afirma que tais medidas podem ter contribuído para o BREXIT.

4. Crises na União Europeia

Apesar do agravamento com a Crise dos Refugiados de 2015, as crises dentro da União Europeia e o aumento do euroceticismo não são fenômenos tão recentes. Mas sim um movimento que ganhou força com a Crise de 2008, que afetou largamente a Europa.

As políticas de austeridade neoliberais promovidas pela Alemanha como um “pacote de recuperação econômica” aumentou as desigualdades dentro do bloco.

Enquanto os países do PIGS (Portugal, Itália, Grécia e Espanha) foram os mais afetados pela crise de tiveram que lutar para liberação de ajuda financeira dentro da UE. Sendo que a Grécia até hoje não recuperou-se totalmente desta crise.

A mesmo tempo que a Chanceler se firmou como uma grande líder mundial e sua popularidade dentro de seu país. Seu argumento? Que internamente estava zelando pela recuperação da economia e da indústria alemãs.

Andrea Römmele, da Hertie School, em Berlim, afirma que “Mais alemães estão vivendo de forma mais próspera nesses últimos 15 anos do que em qualquer outro momento.”

Angela Merkel com Boris Johnson, primeiro ministro do Reino Unido.

Além disso, como já citado, a Crise dos Refugiados de 2015 ajudou a agravar a situação, com aumento do populismo dentro do bloco. Além do BREXIT, concluído em 2016, Hungria e Polônia têm sido dois casos enfáticos dentro da UE, em especial, desde o começo da pandemia.

Isso juntamente com o crescimento do populismo dentro de outros países do bloco, dentre eles, o já citado AfD na Alemanha e Marine Le Pen na França. Por isso concluímos que Merkel deixa o poder em meio de dúvidas sobre o futuro da União Europeia.

5. Pandemia do covid-19

O último ponto sobre o governo Merkel é sua condução da pandemia dentro da Alemanha. Logo no início da pandemia na Europa a Chanceler já tomou medidas preventivas, fechando as fronteiras alemãs e instaurando o uso obrigatório de máscaras além de períodos de lockdown.

Tais medidas visavam evitar que a Alemanha chegasse na mesma situação que outros países, como a Itália, chegaram, onde o sistema de saúde quase entrou em colapso. Inclusive, durante a crise a Alemanha chegou a receber pacientes italianos para ajudar a desafogar o país mediterrâneo.

Até então condução da crise fez com que a taxa de popularidade de seu partido subisse para 90% em abril de 2020.

Doutora em química, Angela Merkel sempre defendeu a ciência.

Contudo a situação se inverteu em 2021, quando o lento ritmo de vacinação no país e no bloco pareceram prejudicar a imagem do país quanto à crise. Outro caso foi o escândalo da Páscoa, quando a impopularidade de seu plano de paralisação para o feriado fez com que retraísse as medidas, chegando a se desculpar sobre o caso.

Por fim, atualmente o país possui 43% de sua população totalmente imunizada e 91.259 mortes acumuladas. Apesar das medidas restritivas internas terem diminuído, o país ainda conta com restrições de viagem.

Em especial para países onde a maior incidência são de variantes não-presentes em larga escala na Alemanha, como o Brasil. As restrições se aplicam mesmo a aqueles viajantes que tenham tomado duas doses de vacinas aprovadas pelo bloco europeu.

Na próxima semana falaremos sobre as eleições gerais alemãs em si.Gostou do conteúdo? Entãoenvie para os amigos e nos deixe comentários!

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