Coreia do Sul: por que o alistamento obrigatório de mulheres?

Por causa de uma petição popular, a Coreia do Sul vai avaliar se o seu serviço militar obrigatório vai ser estendido também às mulheres. O grupo que apoia a proposta diz que isso seria uma forma de promover a igualdade de gêneros.

Quer entender essa proposta, e o debate que ela vem causando na Coreia? Vamos lá.

O que é a política de alistamento na Coreia?

Em primeiro lugar, o alistamento é obrigatório na Coreia do Sul. Hoje, homens de 18 a 28 anos precisam servir nas Forças Armadas no país por cerca de 20 meses. As mulheres podem participar, mas o serviço é obrigatório para os homens.

Porém, em uma pesquisa de 2019 do Instituto de Desenvolvimento da Mulher da Coreia do Sul, mais da metade das mulheres disseram que apoiam expandir o alistamento. 53,7% das entrevistadas disseram que concordam que o serviço militar deveria ser obrigatório também para mulheres.

Afinal, em abril desse ano, uma petição virtual pedindo o alistamento obrigatório de mulheres já conseguiu mais de 300.000 assinaturas. A princípio, o governo precisa discutir qualquer petição que tenha mais de 200.000 assinaturas em 30 dias. Por isso, esse tema entrou como pauta oficial.

Alistamento obrigatório de mulheres na Coreia do Sul

O que dizem os defensores?

De forma geral, os políticos do país dizem estar abertos para discussões sobre discriminação de gênero, e a novas ideias para combatê-la.

Kwon In-sook, parlamentar do Partido Democrático (Minjoo), diz que o alistamento obrigatório apenas para homens é “uma grande fonte de preconceito de gênero na vida profissional de uma mulher“, por causa da discriminação que ela pode sofrer no mercado de trabalho por não ter experiência militar.

Além disso, ele diz que as mulheres também poderiam ter acesso a mais oportunidades de trabalho nas Forças Armadas.

Outro integrante do Partido Democrático, Park Yong-jin, disse que o alistamento obrigatório de mulheres seria uma forma de incentivar a igualdade de gêneros. Ele diz que isso é um meio de diminuir o tempo que os jovens precisam servir, enquanto se amplia o escopo do serviço militar.

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Por causa da queda na taxa de natalidade que a Coreia vem vivenciando, as Forças Armadas também têm mais dificuldade no recrutamento. 2020 foi o primeiro ano em que a Coreia do Sul registrou declínio natural na população. Isso quer dizer que o número de mortes foi maior que o número de nascimentos no ano, pela primeira vez.

Como o diretor do centro de pesquisa Hangil Research, Hong Hyeng-sik, disse: “nós estamos tendo escassez de tropas, mas não temos gente o suficiente. (…) Nem todos os homens estão mentalmente ou emocionalmente aptos a servir, mas por causa da escassez, quase 90% dos homens são recrutados.”

Se a proposta passasse, a Coreia do Sul seria o nono país do mundo a ter alistamento feminino obrigatório. Outros países que já adotam esse sistema são a Coreia do Norte, Israel, Noruega, Suécia, Bolívia, Chade, Moçambique e Eritreia.

O que dizem os opositores?

Mas nem todos concordam com essa posição.

A principal crítica a isso vem da ministra da Igualdade de Gênero e Família, Chung Young-ai. Ela chama o argumento de Yong-jin de “problemático”. Isso porque, ao invés de contribuir para igualdade de gênero, seria uma forma de submeter as mulheres às mesmas desvantagens que os homens.

Por outro lado, o alistamento traz vantagens de emprego aos homens, quando eles terminam o serviço militar. Por isso, as mulheres ficariam em desvantagem no começo da carreira.

A princípio, a ministra diz que é importante reconhecer quem conclui o serviço militar. Mas sem discriminar as pessoas que não serviram.

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Além disso, a diferença salarial entre gêneros ainda é um problema na Coreia do Sul. O país tem uma das maiores taxas entre os países desenvolvidos. Entre outras coisas, isso também impacta na perspectiva econômica no longo prazo, na Coreia.

De forma similar a outros países, as mulheres também foram mais afetadas pela pandemia na Coreia do Sul. Até 2019, a diferença entre salários de homens e mulheres vinha diminuindo. Mas em 2020, durante a pandemia, o desemprego cresceu muito mais entre as mulheres.

  • O BE tem um post sobre o crescimento rápido da economia da Coreia do Sul e de outros Tigres Asiáticos, que você pode ler aqui.

Questão política antiga?

Mas vale ressaltar que essa discussão, sobre mudar o tipo de alistamento, não é nova.

Podemos chamar atenção para o timing, também. O Partido Democrático está trazendo atenção para a questão logo após sua derrota nas eleições locais, em 07/04. A grande maioria dos jovens, na faixa de 20 anos, votou na oposição.

A diretora do Centro para Mulher e Políticas da Coreia do Sul, Kim Eun-ju, disse que esses resultados refletem “a oposição dos eleitores às injustiças do governo atual, e pelo controle do parlamento pelo Partido Democrático”.

Por isso, eles trouxeram a questão. Mas ela diz que isso é “uma avaliação errada da situação”.

Mas não parece que uma mudança desse tipo vá acontecer em breve.

Um porta-voz do ministro da Defesa, Boo Seung-chan, disse que é preciso um “consenso social” antes de pensar em reorganizar o sistema, e que não se pode dar uma resposta definitiva agora.

Para os que gostam de política internacional, acompanhar a questão pode ser muito importante. Isso, porque a Coreia do Sul vive uma das principais tensões do mundo contra a Coreia do Norte.

Desse modo, a inclusão de mulheres nas Forças Armadas teria impacto nos números do exército sul-coreano, um dos mais importantes da política internacional entre os países asiáticos.

Ainda mais, as forças militares sul-coreanas são um importante objeto estratégico dos Estados Unidos em relação ao poder do ocidente na Ásia. Principalmente em tempos de tensão com a China.

  • Você sabe qual é o impacto da indústria do k-pop na economia coreana? Você pode ler mais sobre isso aqui.

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