Como o K-POP movimenta uma fortuna todos os anos?

Você já ouviu falar da “Onda Coreana”, ou simplesmente “Hallyu“? E K-POP?

Seja por conta dos K-Dramas, séries dramáticas sul-coreanas que foram o “ponta pé inicial” desse processo.

Ou por conta do K-POP, cada vez mais presentes nas paradas musicais globais, até mesmo na Billboard, com destaque ao grupo BTS. E por fim, até mesmo por conta de “Parasita” filme sul-coreano que levou quatro estatuetas no Oscar 2020.

O fato é que a indústria cultural da Coreia do Sul tem uma importância enorme para a economia do país. E investimentos estatais em cultura tem um papel muito importante nesse processo. Por isso, na matéria de hoje do Boletim vamos falar um pouco mais sobre isso.

Boyband sul-coreana BTS, em maio de 2019.

AS ORIGENS DOS INVESTIMENTOS

Investimentos estatais em cultura não é algo novo, os Estados Unidos é um grande exemplo de como o soft-power de Joseph Nye é um grande aliado político e econômico do Estado, caso aplicado corretamente. O que é o caso da Coreia do Sul.

A democratização do país na segunda metade da década de 1980 e as iniciativas para uma maior diversificação da economia permitiram a consolidação das bases para essa indústria. Contudo, foi apenas na década de 1990 após a crise financeira asiática que esse processo se intensificou.

O presidente Kim Dae-jung (1998-2003), o “Presidente da Cultura”, enxergava os investimentos na indústria cultural como uma maneira de fazer seu país sair da crise. Por isso, 1999 seu governo aprovou a “Lei Básica para Promoção da Indústria Cultural” e injetou USD 148,5 milhões neste segmento. Desta forma, inaugurando oficialmente a Onda Coreana.

Kim Dae-jung (1924-2009), ex-presidente da Coreia do Sul.

A princípio K-Dramas foram os primeiros a fazerem sucesso no exterior, começando por outros países asiáticos e se espalhando para o resto do mundo depois. Porém, em 2012, o lançamento de “Gangnam Style” por PSY mudou essa situação, assim, fazendo o estilo musical ser o principal expoente cultural sul-coreano no exterior.

O K-POP

Primordialmente, o estilo musical como conhecemos hoje surgiu domesticamente no início dos anos 1990 com o grupo Seo Taiji & Boys, trazendo elementos que foram fundamentais para seu sucesso, como letras em inglês, danças e partes de hip-hop.

Consequentemente, ainda na metade da mesma década o sistema de “produção” de idols começa a ser consolidado no país.

Mas foi apenas vinte anos depois, em 2011 com o grupo sino-coreano EXO que o fenômeno começa a tomar proporções globais. Um ano depois, PSY estoura com “Gangnam Style, primeiro vídeo no YouTube a atingir um bilhão de visualizações, faturando aproximadamente USD 8 milhões apenas na plataforma.

Por fim, até mesmo Ban Ki-moon, ex-Secretário Geral da ONU, elogiou a música, falando da importância da arte para o entendimento cultural.

PSY, no vídeo de “Gangnam Style”, responsável por popularizar o K-POP no mundo.

Atualmente os principais percursores desse fenômeno é o grupo BTS, formado por sete integrantes sul-coreanos. O grupo foi o primeiro da Ásia a atingir a marca de cinco bilhões de streams no Spotify, além disso, apenas em 2019 foi responsável pelo faturamento de USD 4,65 bilhões no PIB sul-coreano.

• Veja também: Por que o mercado asiático está em alta?

COMO FUNCIONA A INDÚSTRIA DO K-POP?

O governo começou a direcionar investimentos diretos ao K-POP ainda em 2005, com a criação de um fundo de USD 1 bilhão destinado apenas à promoção do gênero musical. Por conseguinte, houve a criação de um “departamento do K-POP” dentro do Ministério da Cultura da Coreia do Sul.

Porém para entender o funcionamento dessa indústria, é preciso entender também o que é o “Idol system” que compreende o sistema de criação de “idols”, as estrelas do K-POP.

Todos os anos, jovens coreanos são recrutados e treinados por empresas privadas que os moldam para se tornarem “idols”. Nesse meio tempo os jovens – chamados de trainees – aprendem a dançar, cantar e atuar, além de estudarem idiomas estrangeiros, como mandarim, japonês e inglês.

Por último também passam por procedimentos estéticos padronizadores, que tem causado muitas polêmicas nos últimos anos.

O fato é que as empresas investem nos trainees, por anos esses jovens ficam sob seus cuidados e é esperado que depois de seu “debut“, o início da carreira de fato, os lucros que os idols tragam cubra o valor investido neles neste período.

Atualmente as maiores empresas nesse segmento são SM Entertainment, YG Entertainment e JYP Entertainment, conhecidas como “Big3”. Essas três empresas possuem direitos sobre a maioria dos grandes grupos atuais, como EXO, Red Velvet e BLACKPINK, além de terem consolidado o mercado.

Por último a Big Hit Entertainment também compõe o quadro de principais empresas dessa indústria. Ao contrário das demais ela não participou da consolidação do K-Pop, contudo, é a empresa responsável pelo BTS, maior representante do fenômeno atualmente. Em 2019 a empresa foi avaliada em um patrimônio de USD 2,07 bilhões, grande parte graças ao grupo.

BLACKPINK, um dos mais conhecidos grupos de K-POP da atualidade, faz parte da YG Entertainment, uma das “Big3.”

FÓRMULA MÁGICA DO K-POP

O segredo do sucesso do K-POP vai além de jovens talentosos e muito bem treinados. A mistura de diferentes ritmos tem papel fundamental para o sucesso do gênero musical. Como já citado anteriormente, a incorporação de elementos de hip-hop e letras em inglês estão presentes desde sua criação.

Até mesmo o uso de danças ajudaram nesse processo, pois os fãs se engajam em aprender as coreografias, buscando seus conteúdos da internet.

Além disso, o fenômeno tem “ocidentalizado” cada vez mais nos últimos anos para alcançar um público maior. Como o grupo BTS, que em 2020 lançou sua primeira música totalmente em inglês, “Dynamite” cujo vídeo e a música contam com diversas referências atreladas à cultura ocidental.

O single fez o grupo ser a primeira banda totalmente coreana alcançar o topo da Billboard Hot 100, se mantendo no Top50 por mais de vinte semanas.

O fato é que os fãs não se limitam em apenas escutar músicas, ver os vídeos e afins, eles buscam uma experiência completa que os permite emergir na cultura sul-coreana. E o governo da Coreia do Sul tem usado isso a seu favor com a promoção da diplomacia cultural.

A criação de centros de cultura ligados ao Ministério da Cultura em 33 diferentes países exemplifica esse alinhamento, sendo um destes localizado na Avenida Paulista, em São Paulo.

No Centro Cultural Coreano no Brasil (CCCB) ocorrem diversos eventos para promoção cultural ao decorrer do ano. Além de ser um ponto de encontro famoso para os fãs do fenômeno, que lá treinam coreografias e estudam o idioma juntos.

Centro Cultural Coreano no Brasil, localizado em São Paulo (SP).

O desejo por imergir na experiência não se limita a consumir a cultura coreana, expandindo-se aos padrões de consumo. Por isso, empresas coreanas têm aproveitado dessa onda para se promover comercialmente.

IMPACTOS NA ECONOMIA SUL-COREANA

De antemão a Hallyu fez a Coreia do Sul lucrar USD 9,48 bilhões apenas com exportação de merchandising, sobretudo relacionada ao K-POP. É estimado que a Big Hit lucrou USD 114,5 milhões apenas na venda de merchandising do BTS, o valor corresponde a 23% de sua receita total.

Assim, segundo o Hyundai Research Institute, em 2018 o gênero musical foi capaz de movimentar sozinho USD 5 bilhões, dos quais 72% do valor é relacionado ao BTS.

Por outro lado, os impactos não se limitam apenas a isso, se refletindo em outros setores da economia coreana.

Um exemplo disso, é o setor do turismo que sofreu um aumento desde o início da Onda Coreana. A Forbes Brasil aponta que 796 mil pessoas viajaram à Coreia do Sul apenas por conta do BTS desde seu surgimento.

Seoul, capital da Coreia do Sul e principal destino dos fãs de K-POP que visitam o país.

Bem como setores tradicionais da economia sul-coreana, como o automobilístico e tecnologia, que inclui nomes como Samsung, LG, Hyundai e Kia Motors. Isso porque o uso de idols em suas propagandas mostrou-se como um meio eficiente em atrair um público maior para suas marcas.

Do mesmo modo que a indústria cosmética do país, já consolidada internamente, aproveita esta onda para penetrar mercados estrangeiros, em especial, na Ásia.

Por fim, até o setor de educação sofreu impactos com o aumento da procura de cursos de coreano de fãs que buscam uma maior imersão cultural.

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