A operação lava jato quebrou a economia do país?

Neste mês, um antigo assunto ganhou novo fôlego nas redes sociais: a responsabilidade da Operação Lava Jato na maior crise econômica da história do país.

Em audiência no STF que discutia a suspeição do juiz Sergio Moro, os ministros Ricardo Lewandowski e Luis Roberto Barroso bateram boca sobre o assunto.

Lewandowski chegou a citar um ”prejuízo de 142 bilhões de reais” à economia causados diretamente pela operação.

Lewandowski cobra prioridade em julgamento de prisão em segunda instância -  Época Lava Jato
Ministro do STF, Ricardo Lewandiwski defende que Lava Jato é responsável por crise econômica.

Felipe Neto, youtuber teen que vem se esforçando para se tornar um ator importante no debate político brasileiro, disse que a operação ”ajudou a destruir o país” e custou ”milhões de empregos”.

E aí, será mesmo que a Lava Jato foi a grande responsável pela nossa crise econômica? Ou outros elementos tiveram maior peso?

Fica no texto que a gente te conta.

LAVA JATO E CRISE ECONÔMICA

A Operação Lava Jato foi uma das maiores iniciativas de combate à corrupção e lavagem de dinheiro da história do país. A lava Jato desnudou um esquema que envolvia subornos, propinas e contratos superfaturados entre agentes públicos e privados.

Contudo, o período em que a Lava Jato ocupou as principais manchetes dos jornais coincidiu com a maior recessão da história do país. Uma crise econômica que se arrasta até os dias de hoje.

A partir desta correlação, surge a tese de que há uma forte causalidade entre estes dois eventos.

Mas será que sem a Lava Jato o Brasil teria seguido uma trajetória de crescimento econômico? Ou a operação teve um papel preponderante no aprofundamento da crise?

A LAVA JATO QUEBROU O PAÍS

Os defensores da tese de que a Operação Lava Jato quebrou a economia do país argumentam que a operação afastou investimentos e deprimiu o mercado de crédito no Brasil.

Há quem defenda que a contração do crédito para alguns setores foi o principal canal de transmissão do choque negativo provocado pela operação.

A cifra de R$ 142,6 bilhões citada por Lewandoswki apareceu pela primeira vez ainda no ano de 2015. A consultoria GO Associados, comandada por Gesner Oliveira, previu um impacto na economia de R$ 124,6 bilhões por conta da operação.

Para saber mais sobre o estudo da GO Associados, clique no botão abaixo:

Embora não haja um número definitivo que mostre o impacto da operação na economia, os números de Gesner Oliveira são usados até hoje em rodas de conversa e discussões sobre crise econômica e Lava Jato.

Grande parte desta perda econômica seria atribuída à retração do investimento da Petrobras. Esta retração no investimento atingiria outras empresas, gerando, assim, mais desemprego e aumentando a crise.

Além da retração nos investimentos, a perda de arrecadação de impostos também teria impacto negativo na economia.

Um estudo do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) aponta que o prejuízo causado pela operação chega a R$ 172 bilhões.

Lava Jato
Felipe Neto e Dieese denunciam os males da Lava Jato.

Dieese é uma criação do movimento sindical brasileiro. A instituição é bastante conhecida por divulgar periodicamente o valor do salário mínimo que considera ”justo” para o país.

Segundo o Dieese, o salário mínimo de março deste ano devia ser de R$ 5.315,00.

O estudo foi encomendado pela CUT (Central Única dos Trabalhadores), cliente de longa data do Dieese e contrária à Lava Jato desde o princípio da operação.

A LAVA JATO NÃO QUEBROU O PAÍS

Que a Lava Jato produziu impactos negativos na economia, isso já sabemos. Mas não sabemos, ao certo, quanto foi esse impacto.

Porém, se tem algo que sabemos é que a economia já não vinha bem antes da operação. Portanto, antes da Lava Jato se tornar pública, os fundamentos da economia já davam sinais de piora.

Samuel Pessoa, pesquisador do Ibre/FGV, elenca alguns sinais de que a política econômica do governo não se sustentava. São eles:

Inflação:

Este é o melhor termômetro que a economia tem em tempo real. O IPCA saiu de 3% em 2006 e foi subindo ano a ano, até chegar em 6,5% no fim de 2014. A inflação de serviços, por exemplo, saiu de 4% em meados de 2007 para 9% em 2014.

Vale lembrar que a inflação só não foi maior porque o governo evitou reajustar preços em ano de eleição.

Redução de lucros e investimento das empresa:

De acordo com o Centro de Estudos de Mercados de Capitais (CEMEC), os problemas do setor privado são bem anteriores à Lava Jato.

Entre 2006 e 2010, o investimento para todas as empresas abertas e as principais fechadas girava em torno de 8% do PIB. Porém, este investimento foi caindo ao longo dos anos, chegando a 3,8% do PIB em 2014. Como se pode ver, este movimento ocorreu bem antes de a Lava Jato ter tempo de afetar significativamente a economia.

A queda do investimento está ligada à queda da lucratividade. No segundo governo Lula , o lucro das empresas era de 4,9% do PIB, chegando a 1,2% em 2014.

Para saber mais sobre a crise que atual clique no botão abaixo:

Piora das contas externas:

Analisando as contas nacionais trimestrais do IBGE, vemos que as exportações líquidas atingiram um ápice de 3,4% do PIB em 2005. Contudo, elas chegam a -2,7% do PIB em 2014. Portanto, uma virada de 7,1 pontos percentuais nas exportações líquidas.

Culpas e desculpas pela destruição do ajuste fiscal - Forum Nacional -  INAEForum Nacional – INAE Lava Jato
Samuel Pessoa, pesquisador do Ibre/FGV não vê Lava Jato como vilã do PIB.

Aumento do déficit:

A pesquisadora do Ibre/FGV, Vilma Pinto, nos apresenta a série do déficit público estrutural, ou seja, aquele que desconta as flutuações derivadas do ciclo econômico.

Após o pico de 3,9% do PIB em 2005, o resultado estrutural chega a -4,5% do PIB em 2014.

Assim, podemos ver que antes da Lava Jato entrar em cena, a economia do país já vinha dando sinais de que passaria por uma grave crise.

PARA ALÉM DAS BARBEIRAGENS MACROECONÔMICAS

Os fundamentos da economia se deterioraram no governo Dilma, mas não foi só isso. Uma série de políticas mal conduzidas ajudaram a piorar o quadro.

Estudos do IPEA mostram que o PROMEFE, um programa de incentivos à indústria naval, não surtiu o efeito esperado, ou seja, não trouxe competitividade ao setor. A indústria naval foi uma das que mais perdeu postos de trabalho na crise.

A descoberta do pré sal provocou uma onda de investimentos. Mas muitos deles mal feitos. Estima-se que projetos como Pasadena, Abreu e Lima, Comperj, Premuim I e II, por exemplo, desperdiçaram US$ 50 bilhões (sim, dólares!).

Outra enorme fonte de prejuízos foi a política de preços subsidiados da Petrobras. Até 2015, estima-se que o prejuízo da empresa com preços defasados chegou a R$ 100 bilhões. Isto, de acordo com o então conselheiro da empresa em 2015.

Além disso, a queda dos preços do petróleo na segunda metade de 2014 foi a gota d’água que obrigou a empresa a rever seus planos.

Assim, era inevitável, com ou sem Lava Jato, o corte de investimentos na Petrobrás. Afinal, a esta altura, a Petrobras já era a petroleira mais endividada do mundo.

Eventualmente, aquelas empresas que esperavam um grande plano de investimentos foram profundamente impactadas. Assim, não restava outra saída a não ser demitir.

Além disso, temos ainda os prejuízos no setor elétrico.

Visando as eleições de 2014, Dilma baixou as tarifas de energia. Porém, o aumento do consumo se deu no meio de uma crise hídrica. A falta de chuvas foçou o setor a produzir energia mais cara, a partir do uso de termoelétricas.

Essa brincadeira custou nada menos que R$ 100 bilhões ao setor elétrico. Mas ajudou a garantir a vitória de Dilma em 2014.

POUPAR A LAVA JATO É ISENTAR A CORRUPÇÃO

Pode-se discutir se a Operação Lava Jato cometeu excessos e erros. Afinal, nenhuma operação desta magnitude pode ser infalível. Ou seja, não faltam críticas à condução da operação em muitos momentos.

Mas culpar a operação pela queda nos investimentos é isentar a corrupção e políticas mal feitas de carregarem esta culpa. A Lava Jato mostrou ao mundo a forma como grandes negócios e acordos são fechados no Brasil.

Antes da Lava Jato, corrupção no Brasil era um negócio de baixo risco e retorno elevado. Assim, quando os malfeitos se tornam públicos, é natural que alguns investimentos, criminosos ou não, recuem.

No longo prazo, o combate à corrupção produz efeitos positivos no crescimento da economia. A Lava Jato fez com que muitas empresas adotassem programas de compliance. Tais programas ajudam a diminuir os riscos de corrupção dentro das empresas.

No fim de 2019, o IBGE revisou o crescimento do PIB de 2017 e 2018. Assim, nestes anos o PIB cresceu 1,3% e 1,8%, respectivamente. Em 2018 poderia ter crescido mais se não fosse pela greve dos caminhoneiros.

Nos anos de 2017 e 2018 a Lava Jato ainda tinha bastante força. Dessa forma, alguns dos maiores empresários do país estavam sendo presos, como Joesley Batista, por exemplo. Contudo, o Brasil viu o PIB crescer.

Além disso, quando a política econômica tomou rumos diferentes após o impeachment da presidente Dilma Rousseff, muitos indicadores de atividade econômica começaram a melhorar.

Em suma, podemos concluir que escolhas e investimentos mal feitos foram o que realmente fizeram o Brasil entrar na maior crise de sua história.

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